‘A Netflix é uma empresa de entretenimento, não de tecnologia’, diz fundador

Como um furacão, a pandemia do novo coronavírus chegou ‘de repente’ e trouxe consequências avassaladoras a inúmeros setores da economia. A consequência foi que países como Estados Unidos e o Brasil registraram quedas históricas em seus PIBs – e deverão sentir as consequências do alto índice de desemprego e da perda de renda por um bom tempo. 

Mas, enquanto inúmeros setores e empresas viram suas receitas despencarem, empresas de tecnologia mostraram o potencial da era digital. A tendência natural era de migrar cada vez mais para o mundo virtual, e assim garantir o famoso DNA para se consolidar como uma empresa de tecnologia. Certo? Não para a Netflix. 

“A Netflix é uma empresa de entretenimento, não de tecnologia”, diz Reed Hastings, presidente e fundador da plataforma de streaming, em entrevista ao CNN Brasil Business, para divulgar o lançamento de seu livro “A Regra é não ter Regras: A Netflix e a cultura da reinvenção”, feito em parceria com Erin Meyer. 

De poucas palavras, Hastings parece sorrir à toa: mesmo reafirmando a Netflix como uma empresa de entretenimento, o alcance tecnológico do streaming foi fundamental para que a companhia se descolasse do cenário de crise causado pela pandemia.

Desde março, quando a Covid-19 estimulou o isolamento social ao redor do mundo, as ações da Netflix tiveram alta de cerca de 40% – fazendo com que a empresa chegasse a um valor de mercado superior a US$ 230 bilhões. 

Já a empresa, que em sua fundação realizava entregas de DVDs por Correio, viu o total de assinantes no primeiro trimestre do ano chegar a marca de 182 milhões. Já no segundo trimestre, com muitos países ainda em isolamento social, a empresa adicionou mais 10 milhões de pessoas em seu catálogo de assinantes, totalizando 192,95 milhões de assinantes no mundo. Para se ter uma ideia, no mesmo trimestre de 2019, a empresa ganhou 2,5 milhões de assinantes. 

“[Com a pandemia] As pessoas estão maratonando mais séries, consumindo mais episódios e, até mesmo, ficando acordadas para ver mais capítulos”, diz Hastings. “É muito mais divertido poder o controle sobre quando e o que assistir”, completa. 

O avanço no consumo de streaming repercutiu diretamente no aumento da receita da empresa: no segundo trimestre de 2020, a Netflix viu sua receita subir 25% quando comparado ao mesmo período de 2019, atingindo US$ 6,14 bilhões – algo como US$ 24 bilhões no ano. 

Guerra de streaming

Se Hastings foi claro ao dizer que a Netflix é uma empresa de entretenimento, o CEO não hesitou ao afirmar que a Disney+ é, atualmente, sua maior e principal concorrente. “Sem dúvida, a Disney+ é o nosso maior concorrente. A empresa cresceu mais de US$ 60 milhões em menos de um ano”, disse.

Lançada em novembro de 2019, o serviço de assinatura de streaming da Disney estreará no Brasil em 17 de novembro. No mundo, acumulou mais de 57 milhões de assinaturas até junho de 2020. Mais que isso: acirrou a guerra do streaming, que conta com competidores de peso como Amazon Prime, HBO Go, Apple TV+ e, no Brasil, o Globoplay. 

A rápida aquisição de assinantes não foi à toa: a empresa conta com conteúdos e produções próprias de peso, como filmes do Star Wars, Marvel, desenhos da Pixar, além da National Geographic. 

Nesse embate – e diante de um aumento exponencial de assinantes durante a pandemia, e expectativa de desaceleração de novos consumidores com a retomada econômica – Hastings confirma a tendência da Netflix para os próximos anos: focar em produções próprias. Tornar-se um grande produtor de conteúdo, não apenas nos Estados Unidos, mas, também, em países da América Latina, como Brasil e Argentina. 

“Vocês verão um aumento das nossas produções no Brasil, Argentina, Colômbia, México, Estados Unidos”, diz Hastings. “Em todo lugar”, completa. 

E, segundo o executivo, nem mesmo a pandemia afetou os planos de produção no médio e longo prazo. Isso porque, como produzir um conteúdo demanda tempo, o lançamento de programas e filmes originais permanecem, praticamente, intactos.

Já para o ano que vem, o plano da empresa é retomar as gravações próprias e também espera que as de estúdios independentes voltem – a maior parte foi paralisada pela pandemia do novo coronavírus e o isolamento social.

Com isso, a companhia acredita que haverá uma lista de conteúdo mais ponderada na segunda metade do ano que vem – embora o número total de lançamentos próprios seja maior que em 2020.

Os planos de lançamentos para 2020 seguem os mesmos. Isso porque, já que o tempo de produção de conteúdo é longo, o que realmente será afetado será o ano que vem. Em 2021, já que houve tantas gravações pausadas, é de se esperar que as produções mais recentes demorarão mais para estrear na plataforma.  

Porém, mesmo com tantos problemas causados pela pandemia, os investimentos em séries de outros países fora dos Estados Unidos não cessarão. “Se vocês observarem nossa série japonesa ‘The Naked Director”, ou a série alemã ‘Dark’, verão que estamos investindo muito nelas – e com uma satisfação cada vez maior”, diz o fundador. “Estamos focados em produzir os melhores filmes e as melhores séries em todo o mundo.”

Cultura e relação com home office 

Para Hastings, o sucesso da empresa está diretamente relacionada a sua cultura e modelo de gestão. A liberdade que a companhia oferece aos colaboradores e a visão de time são grandes diferenciais citados pelo empresário. 

“Nos últimos 20 anos, fomos da entrega de DVDs pelos Correios nos Estados Unidos para a expansão global por meio do streaming e, posteriormente, para a produção de conteúdo original”, diz. “Fomos bem sucedidos em todos os negócios justamente pela visão de time. E ela é diferente da metáfora da família: isso porque, na visão de família, vocês se amam não importa o que aconteça, mesmo que a família seja problemática”, afirma.

O executivo é contrário a tratar o time como família justamente por esse ponto: quando você normaliza os problemas (algo que acontece com a família e a convivência rotineira), o avanço deixa de acontecer. Nesse caso, a Netflix atua como uma seleção de Copa do Mundo, em que só os melhores jogadores são escalados e seguem no time – sempre buscando a alta performance e melhorar. 

Ainda nessa linha, Hastings continua se ‘opondo’ às grandes empresas de tecnologia, reforçando o posicionamento de que a Netflix é, sim, uma empresa de entretenimento. 

Diferente de gigantes techs como Google, Twitter e Facebook, por exemplo, o executivo não vê o home office como um modelo de trabalho permanente. Ele inclusive quer o retorno para o escritório assim que a vacina sair. 

“É um desafio trabalhar em casa e felizmente será algo bem temporário. Não faremos isso durante 20 anos. É só até chegar a vacina”, diz. “Todo mundo está esperando o próximo ano e a chegada da vacina. É muito difícil manter a motivação trabalhando em casa sem ver ninguém.” 

Mais do que o desafio de motivar a equipe em home office, quando indagado sobre o que era mais fácil: escrever um livro ou lançar uma empresa de streaming, Hastings não têm dúvidas: montar uma empresa.

“Montar uma plataforma de streaming é mais fácil. Surpreendentemente, escrever um livro é mais difícil. Foram três anos em parceria com a Erin Meyer, coautora do livro, para falar de organizações criativas e como elas são diferentes”, diz. 

Por isso, para Hastings, o sucesso de uma empresa – e da Netflix – é pautado no “a regra é não ter regras.” 

Fonte: CNN Brasil

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